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Tuesday, April 24, 2007

O tempo dispersa-nos. A frase, não passa disso mesmo, é uma observação, mas não uma regra.
Vinte anos passados vejo como o tempo se uniu para nos juntar. Fez-nos bons amigos, rimos e chorámos, apoiámo-nos e fomos o ombro do outro. Andámos na mesma estrada, mas ao contrário de outros optámos por fazê-lo juntos.
Até que hoje o tempo começou a dispersar-nos.
Definitivamente. E a contra gosto!
Olhando para trás é difícil ver as coisas correctamente. A perspectiva não é a melhor, hoje pelo menos. Os acontecimentos flúem até mim sem qualquer ordem, não é um flashback ordenado, assim de repente nem sei ordenar tudo o que aconteceu.
Talvez por isso prefiro começar pelo fim ou pelo seu começo. Reunimo-nos todos em minha casa, esta era a minha vez. Foram aparecendo consentaneamente com a hora do fim do expediente. Primeiro a Leonor, depois o Carlos e a Vanda, aparecendo no fim e num acordo surdo o Rui e Mónica.
Pelo menos duas vezes por mês juntamo-nos a uma Sexta-Feira em casa de alguém, para falarmos, comermos, discutirmos, para nos vermos simplesmente! Para vermos um filme ou discutirmos a politiquice nacional!
Não consigo pensar no tema de conversa, estou demasiado cansado. Mas foi a última vez que estivemos todos juntos. Hoje pela manhã descobri que a Mónica tinha morrido, num acidente de carro. Não fez uma curva e caiu duma altura significativa, tendo perdido instantaneamente a vida ou pelo menos é o que dizem. Passámos o dia atarantados, não sabendo como agir ou mesmo reagir. Fomos todos apanhados de surpresa, ainda ontem estava connosco, a rir, a falar, conversar. Ao menos estivemos com ela, o Alberto, o marido estava em trabalho numa Feira de Editores Internacional. Falei com ele durante a tarde, vinha a caminho, estava à espera do avião e estava demasiado abatido para dizer muita coisa com nexo. Falarei com ele amanhã. Também eu estou cansado, vou dormir e pegar neste proto-diário de manhã.
Afinal o sol ainda não nasceu. Eu sem sono, perdi uma das minhas melhores amigas, tragicamente. Comecei este diário como uma forma de encadear ideias e de manter alguma calma, quando escrevo o nervosismo desaparece um pouco, escrever nas teclas, pensar e encadear uma linha de raciocínio acalma-me, alivia-me.
Conhecemo-nos na Faculdade. Não foi amor à primeira vista, fomo-nos conhecendo e criando os laços que ainda hoje nos prendem. Estamos unidos pelo tempo, pela amizade, pela cumplicidade, pela preocupação, pela experiência. Já passamos por tanta coisa juntos, que…
Somos uma família, penso que é isso que somos. Vivemos as nossas vidas, temos os nossos problemas, discutimos mas a amizade mantém-se.
Todos entrámos para uma Faculdade de Letras, com sonhos e desejos um pouco ainda enevoados. 20 anos depois um de nós trabalha na área, sendo professor. Os outros pairaram por ali durante algum tempo, mas depressa encontraram outros interesses.
A Mónica era designer, amadora mas boa naquilo que fazia. Claro que ter um marido editor sempre ajuda, mas nem era este o caso. Ela fazia a direcção artística de uma editora que não a do marido. Quantas vezes brincámos com ela dizendo que o seu sucesso ainda seria o fim da carreira dele? Sempre na brincadeira porque cada um deles é (era no caso dela, alguma vez me habituarei a falar dela no passado?) bom na sua área de trabalho.Na 6ª feira falava de como poderia ter ido com o marido, mas estava a terminar um trabalho com alguma urgência e de qualquer modo não lhe apetecia ir a “coisas daquelas, ainda por cima eu trabalho para a concorrência”, se ela soubesse! Uma estúpida Feira em troca da sua vida! Que raio de desfaçatez, a do destino!

Tuesday, April 03, 2007

Fantasia

O dia nasceu mais frio do que normal.
Pela primeira vez em anos, um manto branco cobria a terra. As crianças acordaram num misto de surpresa, medo e curiosidade. Os mais velhos perscrutaram os céus. Reuniram-se em volta do ancião, descansaram com as suas palavras, e tentaram voltar ao seu dia a dia.
No meio da aldeia a cabana do velho homem não denotava qualquer tipo de ansiedade. Tudo corria numa calma normalidade.
Sentou-se cansado na sua cadeira e pediu à mulher que reunisse as crianças da aldeia.
Alguns minutos passaram, até que a sala que servia de cozinha albergasse uma dúzia de crianças. De olhos abertos e ansiosas esperavam pela razão da visita.
Devagar, quase ausente o velho olhava para elas, sorriu momentaneamente, até que suavemente pediu à mulher que lhes fizesse uma bebida quente à base dumas ervas.Olhando para aquelas crianças pensou nos pais delas, em como os tinha visto crescer, enamorar-se uns pelos outros e como estes pequenos rebentos tinham germinado.
“Sabem a razão pela qual estão aqui?”, perguntou.
Um mais afoito respondeu que não.
“Quero contar-vos uma história. Nada mais que isso.”Viu nos seus olhos a importância do acontecimento. Entre eles o relato das coisas transmitia a vivacidade da vida, a tragédia, os diferentes elos que nos uniam uns aos outros. Mas claro que tudo isto era somente uma parte da questão, os elos também nos prendiam, oprimiam, e levavam-nos a fazer coisas que não queríamos. Pelo menos era isto que ele gostava de pensar, era uma desculpa e ao mesmo tempo uma força para continuar a viver. Era um peso que lhe saía de cima. Aceitou agradecido o copo quente que a mulher que o servia há tanto tempo lhe estendia.
Bebeu um pouco, juntou as recordações e começou a história.

Saturday, March 31, 2007

Tentativas I

6ª Feira 21h00
A porta fechou-se. Barulhos de passos ecoaram pelas escadas até que percorreram calmamente o espaço do prédio até ao carro.
Com calma aparente o carro foi ligado e posto em andamento. Cerca de um quarto de hora depois a polícia chegava ao local.
6ª Feira 22h15
José arruma o carro a cerca de meio quarteirão de casa. Anda um pouco e é reconhecido por um vizinho. Dois polícias correm para ele e dão-lhe ordem de prisão. Não reage, nem mostra qualquer sinal de surpresa. Apático é conduzido para o carro da polícia e depois para uma pequena cela onde passa a noite.
2ª Feira
Acordo pelas seis da manhã. Deixo-me estar um pouco mais. Estico o braço e sinto o vazio. Quando será que me acostumarei à sua ausência? Ser polícia não é fácil, mas é o meu emprego e o que eu gosto de fazer.
De qualquer maneira ser polícia em Portugal é muito mais seguro do que nos EUA. No entanto a mulher do polícia sofre sempre, seja num país pequeno e calmo seja numa metrópole violenta. Mas quem sou eu para inventar desculpas para o comportamento dela ou para o meu? Não soubemos viver a nossa vida a dois, fosse pelos ciúmes mútuos, fosse pelo medo de um ou o zelo do outro. Amámo-nos, tememos o nosso amor e começámos a criar muros, dúvidas e fossos. Deixámos de ser dois num e passámos a ser um em dois. Éramos um para os outros e um para o outro. Estranhámo-nos. Levanto-me.
O corpo dói-me todo depois de estar deitado quase 36horas seguidas. Passei o Domingo na cama, pelo simples facto de não me apetecer levantar para nada. As únicas pessoas que me apeteciam ver eram aquelas que não necessitam da nossa resposta, as da televisão. Levantei-me para mictar e beber um copo de leite.
Como vivemos hoje em dia em prole dos outros. Senão fosse por eles não me levantava da cama. Ponho água a ferver para o café. Vou à casa de banho e desfaço a barba. A Luísa gostava de me ver de bigode. Dizia que a fazia lembrar um actor qualquer. Desde que a Luísa se foi que deixei crescer um pouco mais em baixo, de modo que agora tenho pêra completa. Gosto mais assim. O telefone toca. Que toque! Nada se interpõe entre mim e a minha higiene pessoal. Não saio da casa de banho antes de estar completamente lavado. Já vestido vou para a cozinha e faço o meu café. Forte e simples, sem açúcar. O telefone toca outra vez. Levanto-me contragosto e atendo. Querem-me na esquadra imediatamente. Tem a ver com um suposto caso de violência doméstica na 6ª Feira. Para que raio precisarão de mim? Tudo me lembra dela. Nunca lhe fui infiel, vistas bem as coisas nunca lhe fui fiel também. Nunca olhei para outra mulher senão ela. Mas ela sabe tão bem como eu que nunca ocupou o primeiro lugar na minha vida. Eu e a minha profissão est