Tuesday, July 20, 2010

João Carlos Silva é o autor da moda.
Escusa o leitor de ir procurar na internet, este texto é ficção e corre o risco de encontrar um João Carlos Silva que aparente ser o personagem e isto causará decerto problemas de interpretação. - O Narrador.
Escreveu, aos trinta e cinco anos, cinco livros. Dois ganharam prémios, quatro são bestsellers, um é incompreendido pelos fãs, ainda que objecto de culto por parte daqueles que não gostam de João Carlos Silva.
João não gosta de multidões, é tímido e prefere não discutir com estranhos aquilo que escreve, por isso encontra-se, agora, num inferno muito próprio, uma Feira do Livro.
É tão branco que poderia ser herói de uma dessas ficções actuais sobre vampiros. Claro que a pigmentação que possui é fruto da estadia longa e frutuosa em locais fechados, nomeadamente o seu quarto e umas quantas bibliotecas. Poderia encontrar o seu nome no baixo-assinado contra a Biblioteca Nacional, se fosse de carne e osso. - O Narrador
Está sentado ao lado de uma das barracas da editora, com o seu editor ao lado. Está quente, 35 graus, sem uma brisa que o alivie.
Só para explicar que as minhas frases encontram-se a negrito não para me evidenciar, podia ser, talvez seja essa a razão a um nível inconsciente, mas para vos dar a oportunidade de as evitar, lendo o texto sem os meus apartes. Escuso de assinar novamente, se leram as dua notas anteriores sabem que sou O Narrador.
Bebe um golo de água, já morna, e levanta a cabeça. Uma mulher, morena, tanto a nível capilar como epidermicamente, lindíssima, sorri-lhe e estende-lhe os cinco livros. João olha para ela, menos demoradamente do que quereria. 
-Qual o seu nome?
-Valquíria.
João pára um pouco. Sorri-lhe e responde.
-Morri e vou para Vallalla?
A moça olha para ele com um ar incompreensível. João pensa se vale a pena explicar a piada e desiste.
-Não os dedique a mim, são do meu irmão e do meu pai. Eu só vim para o ver ao vivo.
Explica-lhe quais os nomes a colocar em cada um dos livros, João termina as dedicatórias e sem pensar, e aproveitando a situação, dá-lhe um cartão.
-Envie-me um mail, podemos falar sobre as Valquírias.
Ela ri, um riso que a João parece irritante e oco, mas leva o cartão.
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Poderia demorar um pouco explicando a presença de Valquíria nos pensamentos de João, no resto daquele dia; poderia, também, evidenciar mais alguns aspectos da personalidade de João, vincados nas suas acções ou inacções durante a sessão de autógrafos - a forma como se engasgava quando alguém lhe perguntava sobre um dos seus personagens ou quando alguém (na verdade um indivíduo de fato, gordíssimo e a suar por tudo quanto eram poros) tentava retirar algum ensinamento esotérico que simplesmente não está no livro). Poderia, posso mesmo, mas prefiro ir atrás de Valquíria, que por sinal pára em mais duas bancas, as duas de carácter esotérico/duvidoso, onde compra três livros, que me abstenho de nomear.

Valquíria chega a casa com um sorriso nos lábios. Entrega os livros ao pai e ao irmão, dirigindo-se ao quarto. Retira o cartão de João de um dos sacos. Senta-se ao computador e escreve um mail, onde demonstra toda a sua admiração, não para com o escritor, mas para o homem que este é.

Claramente, Valquíria é daquelas mulheres bonitas com queda para homens apagados, talvez porque sobressaia ainda mais ao lado destes, talvez porque sofra de miopia ou dioptria (nunca sei qual), se não das duas.

Está para ir buscar um dos livros que comprou quando nota que recebeu um mail. Abre-o.
"Desculpa, mas axo que t enganaste no mail, eu n escrevo, profissionalmente, p menos. Mas és gira, gostei bué da tua foto. Isto não é uma brincadeira, pois não? Envio-te uma foto minha também. Se quiseres podemos ir beber um copo."
Valquíria abre o ficheiro e pasma perante um tipo mais moreno que ela, com ar de surfista.
Pode sofrer de miopia, mas não é parva. Sair com um surfista também é de valor. Quedo-me por aqui. Para quê avançar mais na narrativa, se ela já saiu dos eixos que João terá imaginado naquela tarde? Valquíria encontrou-se com o surfista. João esperou pelo mail. Desesperou até que descobriu que os cartões que tinha feito tinham um erro. Faltava um ponto a dividir o Carlos do Silva. Depois voltou a fechar-se em casa e escreveu um livro, uma história de amor sofrida, mas que acaba em casamento. A ficção serve também para isso, criar ilusões.

1 comment:

Lince said...

Adorei!
Está muito bom!