Friday, March 26, 2010

Era uma vez...

Era uma vez…
Eu sei que é uma forma recorrente e recursiva de começar, mas quantos textos não começam assim? E a problemática com que nos deparamos é a do início de uma narrativa. Logo é justo, ou pelo menos expectável, que uma história comece assim. Era uma vez…
Claro que teremos tempo (ou teríamos, porque ainda que tenhamos tempo, não temos vontade) para outras caracterizações, nomeadamente temporais, geográficas, psicológicas e outras que tais.
Mas se o conto tem de começar por algum lado que comece pela sua vez, era uma vez, distinta de outras, ainda que igual a outras tantas.

Era uma vez… Afinal não! Os autores enganam-se, escolhem formas e fórmulas, pensam, repisam nas palavras e frases, avançam e voltam atrás, recomeçam.

Há muito tempo atrás (parece-me melhor!), tão atrás que não guardamos registo de ter existido, havia um reino no meio de um deserto. Como foi ali parar, como alguém decidiu construir alguma coisa ali não sabemos. Seriam loucos, fugitivos, nómadas fartos de viajar, ascetas? Fiquemos na dúvida.
Temos à nossa volta um deserto. O reino encontra-se a sudoeste, a cem quilómetros de uma rota de comerciantes. Não é desconhecido, reina na mente de muitos, maioritariamente como uma fábula, uma lenda. Poucos são os que se afoitam a caminhar cem quilómetros de deserto, areias movediças, tempestades de areia e escorpiões!
Nesse reino, como em quase todos os reinos da Antiguidade e antes dela, há um líder (o nome varia de cultura para cultura). Esse líder tem 30 anos, pele obviamente tisnada pelo sol. É amado pelo seu povo, igualmente encarvoado. É justo, pouco dado, obviamente, a trabalhos manuais, mas amante da sabedoria popular e filosófica. O povo estranha esta tendência, diz em palavras baixas que o rei troca sem pesar uma noite de prazer carnal por uma tertúlia com os sábios, filósofos, mágicos e velhos ascetas.

Um dia esse Rei olhou para o sol. Durante uma hora, não fechou os olhos, tentando, talvez, vencer o brilho do astro pela tenacidade. Em vão, o sol continuou a refulgir, os olhos do Rei sofreram o castigo na impertinência, não ficou cego, mas a visão ficou reduzida.
Nessa noite, o Rei convocou aqueles que se dedicavam à arte do pensamento, da discussão, da oratória. Mas convocou mais alguém. Um viajante que ali chegara delirante, quase morto, e que convidado a ficar não ousou voltar a palmilhar as quentes areias do deserto. O Rei tornara-o o seu pessoal contador de histórias, não imaginadas, assim esperava, mas reais. O que lhe pedia era simples, "descreve-me o que conheces para além do deserto".
Decidiu, naquele dia, que o homem devia contar a todos os outros o que lhe contara a ele. O homem vinha de uma terra onde o sol nascia e se punha no horizonte. Todos os dias, contara-lhe, havia horas de luz, entre o momento em que o sol nascia e o momento em que terminava a sua viagem no céu. Depois vinha a noite, por vezes escura, outras mais clara, havia – dizia o homem - um outro astro, a lua, que por vezes apresentava-se com fulgor, mas sem o calor do sol, outras quase que se ignorava no céu. "Existem estrelas, pontos mais pequenos, brilhantes, e em grande número", acrescentara.
O Rei sonhou com isto, acordado, mas também a dormir. Sabia que a imaginação era poderosa, as discussões, as histórias tinham-lhe provado isso, pelo menos isso. Mas o Rei guardava no seu coração um desejo, queria ver esse espectáculo ao vivo.
O homem contou várias histórias, hábitos, descreveu animais, paisagens, frutos e no fim, como o Rei lhe tinha pedido, falou do sol, da lua, do firmamento estrelado.

O conselho de sábios torceu, metaforicamente, mas num caso ou dois objectivamente, o nariz. Discutiram esta última parte, chegando à conclusão, maioritária, de que o homem estava louco, afinal o calor e fulgor tórridos do sol tinham deixado a sua marca naquele pobre desgraçado. Externamente foi isto que repassou, mas internamente todos sonhavam com aquela possibilidade, criando e recriando nos seus interiores o que tinham ouvido.
O homem terminara com uma frase que os marcara. “Continuo a achar estranho que aqui o sol não nasça, mas o que mais me marca é não poder voltar a ver o sol se pôr.”

Poucos anos passaram, tudo corria na modorra alegre do dia-a-dia. Mas na cabeça de muitos havia o desejo de não morrer sem ver aquele expectante desconhecido, o sol a viajar no céu, a despedir-se por algumas horas e em seu lugar uma escuridão de pequenos pontos luminosos.
Ora, como porventura sabeis, o desconhecido exerce um poder enorme sobre o nosso conhecido, sobre a nossa inércia. O desejo começou a transformar-se em vontade, a vontade em projecto e um dia um grupo de jovens, homens e mulheres, decidiu pôr em risco a sua vida, a sua rotina e pôs-se a caminho, guiados pelo homem.

Riscos e medos pairavam na sua mente. Conseguiremos ver a noite, como o estranho lhe chamara? Se algum dia chegarmos lá, voltaremos? Quereremos voltar? Conseguiremos voltar? Despediram-se dos amigos, dos familiares, do local a que chamavam casa e Reino, despediram-se de um Rei pesaroso, que via e abençoava a ida de alguns aventureiros abençoados pela vida e pela sorte. Ele teria de se quedar ali, não porque quisesse, mas porque sim. Um Rei é um REI e tem obrigações, morais, sociais, políticas e, neste caso, locomotivas.
O grupo partiu e nunca mais voltou. Sei que poucos chegaram a esse local onde o sol nasce e se põe, dando lugar à lua. Foram poucos os que ali chegaram, de lábios gretados, meio loucos. Mas a alegria, a surpresa que tiveram quando viram a finalmente a lua e as estrelas valeu pela viagem, pelas mortes, pelas lágrimas, que a determinada altura secaram.

Terminemos a história. No reino, no deserto, debaixo do sol abrasador, o Rei ia temendo pela vida dos que tinham partido, irritado com a sua condição.
Um dia, já velho, tomou uma decisão. Começaram a retirar as muralhas de um lado da cidade e a reconstruí-las do outro, na direcção que o grupo tomara. A cidade percorreria o caminho até às estrelas. Como se supõe, era uma obra lenta, cansativa e que penou o carinho do povo pelo seu rei.

Dizem que morreu louco, só, desafiado pelo povo que se fartou de estar a carregar pedras de um lado para o outro, consciente da sua condição, das suas latitudes. Mas se é verdade que morreu, não é mentira dizer que ao morrer sonhou com as estrelas, sem contudo as poder ver.

Wednesday, November 18, 2009

Os últimos anos mudaram-no, sem que se aperceba muito bem como e porquê. É uma evolução ténue, mas consistente. De ano para ano, de encontro para encontro reconhece que já não é bem o mesmo.
Viu um vídeo com 15 anos. Menos 40 quilos. Sem barba. Cara de parvo. A rir, a falar. Mas num ou noutro segundo o ar actual, sério, macambúzio.
Será que é outro hoje ou era outro ontem? O ar sério, triste, melancólico já lá estava, escondido pelo sorriso.

É isto que é ser adulto? Medir as palavras, as consequências, não se conseguir exprimir, ficar atolado em sentimentos? Perder-se dentro dele, sem rir?

Nunca teve jeito para pessoas. Evita perguntar como vão, já que à medida que as pessoas vão envelhecendo vão trocando o "tudo bem" por um rosário de problemas e apoquentações. E ele ali, sem saber o que responder, entre o sorriso amarelo e o desejo de fugir. Às vezes coloca a mão nas costas delas, nas suas mãos, olha-as nos olhos, pedindo a Deus que o tire dali.

O desejo de estar com pessoas foi diminuindo. Prefere estar só, consigo, conversando interiormente.

O trabalho é mecânico, sem prazer, seco. As vezes em que é obrigado a comunicar, com colegas, patrão, clientes é profissionalmente correcto, mas fica por aí. Não almoça com eles, não troca mails ocos, não consegue rir das piadas brejeiras que correm pelo escritório.

Hoje, quando chega a casa pegará na cassete de vídeo que viu, mencionada anteriormente, depois de a ver, destrói-a, tentando apagar o que foi, evitando mudar.

Os últimos anos mudaram-no. Mesmo não entendendo, ele vai evitando ser o que já foi, fechando-se e apagando-se.

Thursday, May 14, 2009

Escreveu sem dizer nada a ninguém. Enviou o livro para algumas editoras, só uma lhe respondeu.
Acordaram numa edição curta. Autor novo, livro um pouco longo. Foram algumas das "desculpas" dadas.
O importante para ele era ser editado, embora não soubesse explicar porquê.
Uma, duas, três crónicas. Uma demasiado entusiasta, versava sobre a forma como uma palavra no meio do livro alterava todo o contexto e reformulava a imagem da literatura nacional.
Não percebeu. Uma palavra no meio do livro? Que raio...?
Agarrou numa das suas cópias e leu o que escrevera. Na página 150 depara-se com a palavra, obviamente um erro.
Nesse ano ganhou dois prémios e os seus livros começaram a ser editados em Espanha.
O sucesso foi retumbante.
Estupidamente, pensa. O meu desejo é alterar isto, colocar a palavra bem escrita, mas infelizmente um erro deu-me sucesso.
Anda, obviamente, com um bloqueio. Não consegue escrever nada. Não sabe o que as pessoas acharam do livro, toda a gente fala da inteligência daquela palavra.
A cirrose está a um passo, perdão, copo de se tornar realidade.

Friday, May 08, 2009

Gostava de te dizer pessoalmente o que sinto. Sonora e arrebatadamente. Mas tenho medo do tom de voz, e de ser mais ou menos espalhafatoso.
Todo eu tremo cada vez que olhas para mim. Gostava de ser dono dos teus olhos. De entrar dentro da tua alma, de te conhecer mais intimamente.
De antecipar cada palavra, cada sopro, cada suspiro. Acho que já o faço, mas dissimulo. Tenho medo da tua reacção. De te ouvir dizer “que não”, “afasta-te” ou “estás louco(?)”. E estou, imensamente louco por ti.
É loucura, é paixão, e amor. Três coisas diferentes. Mas que se juntaram para dar cabo da minha sanidade.
Há pouco entraste na sala. Com aquele sorriso tímido, mas belo. Um ar humilde, quando podias ser petulante. Os olhos negros, nessa escuridão não teria medo de entrar. Esse olhar sereno enlouquece-me. Pouco a pouco. Sorriste-me, como sempre sorris. E perdido, encontrei-me.
Aceita esta carta. Responde-me. Não, não respondas. Ou melhor…
Não sei se alguma vez ela chegará a ti. Vê como me deixas. Perdido, com medo de me encontrar. E gostava que fosses o meu ponto cardeal, mas tenho medo da viagem. De não chegar a bom porto. Medo que tu sejas a tempestade que me destrói e não o suave porto que me acolhe.
Amo-te. Menos do que poderei. Mais do que consigo suportar e, essencialmente, calar.
Tímido demais para gritar ao mundo, amo-te. Grito-o aqui, nesta folha de papel. Só para ti.
És senhora da minha voz.
Amo-te.
E tu?

(carta de amor escrita para um concurso da Bertrand, mas nunca enviada)

Passa, passas, passou?

O tempo passa. Passa por nós, por onde andamos e é das coisas mais subjectivas que existem.
Às vezes um minuto parece demorar uma eternidade, outras parece um segundo, a favor do tempo, parece que há alturas em que o minuto parece mesmo demorar um minuto.
Mas, avancemos.
O tempo passa, e nós? Estou no mesmo sítio onde há dez anos te conheci. Sou o mesmo? Claro que não! Onde andas tu? O que fazes? Não sei. Há algum tempo que não pensava em ti...
E como as coisas mudaram. Lembro-me de uma altura em que mesmo que quisesse não o podia deixar de fazer. O outro dia quando me apresentaram alguém, extremamente parecida contigo, olhei para essa pessoa largos segundos, se é que os segundos se alargam, e só quando o nome dela se afundou em mim tive a certeza de ser outra que não tu.
O tempo passa? Passa. E por mais que a situação nos pareça fútil ou importante, ele limpa-nos, circuncida-nos.
A partir de quando te afastaste nos meus pensamentos? Quando deixei de pensar em ti? Toldaste-me dias inteiros, zanguei-me com o mundo, com os meus amigos, com quem não conhecia quando, depois de marcarmos um encontro, não nos víamos. Outros tempos... Sem telemóvel, sem carro. Será que hoje seria diferente?
Antigamente colocavam o amor nas mãos de Cupido, depois de colocarem o amor nas mãos dos interesses das famílias ou clãs. Colocarão hoje alguns o amor nas tecnologias?
Mas falo de amor... e tenho de colocar-me a questão "Amei-te?"
Sentia-me inebriado na tua presença. Sempre que te via, perdia-me no futuro, sem atentar no presente. Não me sentia atraído sexualmente, sentía-me atraído por ti, achava-te a mulher, perdão, a miúda mais gira que conhecia. Infelizmente, a velha máxima servia-te. Eras um pouco tola. E talvez fosse isso. Mas, amei-te?
Não sei porque é que estou aqui, frente a um monitor, de noite. Quando todos fazem silêncio e muitos descansarão, escrevo isto.
Sei que casaste. Pouco mais sei. Eu? Aqui estou, solteiro convicto, com amigos verdadeiros, mas com pena de não ter mais gente a morar neste velho apartamento.
Quando me apresentaram aquela mulher, senti algo dentro de mim a mexer. Percebi que os adeptos dos blind dates, encontros amorosos tentavam fazer de cupido. Era ela linda, inteligente e muito divertida. Eu, na primeira oportunidade, saí da festa.
Porquê?
Devo estar parvo, se é que não o sou. Mas quando senti o coração bater mais rápido...
...
tive medo. Não adivinhas, pois não? Tive medo não de alguma coisa poder acontecer ou deixar de acontecer. Tive medo de...te ver nela.
Não rias ou sorrias sequer. Já passei por isso. Gostar de alguém por me lembro de ti, gostar não dela, mas de ti, olhar para ela e ver-te a ti, como o reflexo de um espelho. Tive medo que na minha mente ela já não fosse quem ela é, mas sempre tu.
Estou louco, velho, demasiado só?
O tempo passa. Mas às vezes faz gazeta, acredita no que te digo. Por muito que me custe, tu ainda não passaste por mim.
Olha para o copo, para o whisky dentro deste. Dá mais uma golada.
Sempre se considerou um homem com humor, sempre gostou de rir, e tem pena que já não haja boas anedotas.
Há um mês contaram-lhe uma sobre o Primeiro-Ministro. Achou piada, não tanto pelo sentido de humor, mas...pela crítica, por...sabe lá, uma anedota é também um curto tratado sociológico.
Poucos dias depois, contou-a a dois colegas durante um coffee-break.
Enche o copo mais uma vez.
Um dos colegas chibou-se, o circo começou e o pão foi oferecido pelas televisões, rádios e jornais.
O telemóvel não mais parou, uma semana depois disseram-lhe que estava demitido.
Bebe mais um gole...
"Porra! E o pior é que contei mal a anedota..."

Jogos de Palavras

O circo passava por imensas dificuldades financeiras.
Desesperado, decidiu clonar um clown.

Hábitos Linguísticos e a teimosia de cada um

Passou por um antigo cliente, ele sorrindo-lhe disse-lhe:-Ora, viva.
Sendo do contra, morreu.
Chove lá fora e dentro de mim. Cliché, claro, mas não menos verdade.
Não morreu ninguém. Simplesmente, acordei cinzento - mais um cliché!
Como explicar que um sentimento nos possa transformar o ser, mesmo que por breves momentos? Sejam eles minutos, horas, ou dias? Que a brevidade depende sempre do contexto. Não costumo ser assim...
Estou num daqueles momentos em que tudo me sai mal, da boca, do corpo, as palavras saem afiadas, os jeitos tornam-se mais ameaçadores do que esperado, o olhar é menos simpático.
Acordar depois de uma noite bem dormida, ser incapaz de sorrir, olhar-me no espelho e sentir pena, algum tipo de asco e estranheza perante a pessoa que sou reflectida ali. Por alguma razão olhamos para fora de nós. Penso que poucos ficam felizes com o que vêem aos espelhos, eu sei que não sou um desses. Olhar é ver o que está perto de mim, longe também. É esquecer-me um dia inteiro do que sou, de como pareço. É esquecer-me da minha aparência, é ausentar-me de mim. E depois, passo por um espelho, por vezes um vidro, e tenho um vislumbre de quem eu sou, da matéria de que sou feito.Quem és tu? Perdão, quem sou eu?
Vestir-me na estranheza de me cobrir, reinventar a idumentária, demasiado cinzenta, pouco negra. Vestindo um corpo que não bate com a alma, sendo alguém fisicamente diferente da pessoa dentro desse mesmo corpo.
Chove lá fora...
O meu estado de espírito não depende do tempo, já passei por isto em dias solarengos, quentes mesmo. Por isso, sei que andarei todo o dia a pingar, a chover este estado de espírito e é isso que mais me intranquiliza.
Espero que o sol apareça.
Entrou no alfarrabista num misto de alegria e alergia. Adora livros, velhos ou novos, ´tijolos` ou ´calços` de mesas, romances ou livros mais específicos.
Olhou à sua volta. Por onde começar? Espirrou uma primeira vez, ao pegar numa edição do início do século do seu romance português favorito - Os Maias.
Demorou imenso tempo na primeira estante. O dono, ali não havia empregados, pergunta-lhe se o pode ajudar, se procura algo específico.
"Nem sim, nem não." - responde. "Quero um livro, não sei qual. Acho que é ele que me vai escolher."
O alfarrabista sorri, está habituado a excêntricos, lunáticos, estudiosos, professores universitários, a leitores, a profissionais da escrita e aos amantes do livro.
Percebendo que cada um é como é, e que a relação com os livros é pessoal, sui generis, como uma relação entre marido e mulher, deixa-o só, após mais um espirro.
O homem vai vendo os títulos, as lombadas, os autores. Demora tempo com alguns livros, pesando-os, pensando no título, procurando entre as páginas algo que o prenda.
De repente, pega num volume amarelado pelo tempo. Espirra uma e duas vezes. O título fascina-o, não conseguindo perceber qual será o assunto. "Míriades ausentes". Desfolheia o livro. Fascinado com a tipologia do mesmo, sente que foi escolhido. Imagens, gravuras, poemas, crónicas, contos, tudo cabe dentro daquelas páginas.
Pergunta ao alfarrabista, que já o observava há algum tempo, o preço. Este sorri-lhe, diz que é uma oferta. O homem tenta perceber a razão.
O alfarrabista sorri-lhe, diz-lhe que fica para outra ocasião. "Leia-o primeiro, se quiser falar depois disso, venha até cá. De qualquer modo, acho que o livro o escolheu, realmente."
Ainda mais curioso, agradece ao velho dono, e avança a passos largos para casa.
A música entra-lhe no espírito. A letra, o compasso, a alegria.Tudo o contagia. Bate as palmas, olhando para a estrada.O carro derrapa um pouco, a alegria torna-se em susto, as mãos não conseguem suster o volante.Estampa-se contra uma parede. Ileso.
Ileso? O ego, não.
Dizem que os olhos são a janela da alma.
Não sei se serão, provavelmente por descuido e impossibilidade de analisar as almas.
Mas há olhos que nos prendem. Pela forma como enquadram um rosto, pela tristeza ou felicidade que deles emana, pela timidez ou coragem, porque sem olhos seríamos bem menos expressivos.
E lembro-me dela, a entrar na sala, num passo tímido, com os olhos em baixo.
Dela à procura de uma cara conhecida, em vão.
E enquanto ela percorria a sala, os meus olhos tentavam percorrer os seus, ciente de que não me via.
Via o nariz pequeno, bem desenhado, o cabelo castanho, pelo ombro, o vestido justo ao corpo, mas não demasiado justo, e a timidez, que de tão grande a vestia segunda vez.
Ela olhou-me, nos olhos, um segundo, menos que isso. Sentou-se numa das cadeiras, e ali ficou.
Numa folha de papel somos que quisermos, como quisermos. Num conto somos valentes e corajosos. Na vida real, na vida real temos medo do outro.
Fiquei mais algum tempo ali. Olhando para ela, de costas para mim. Imaginando aquilo que poderia ver, se quisesse. Os olhos dela.
Saí, e voltei a casa.
Num conto podemos inventar futuros, realidades, possibilidades. Na vida real amaldiçoamos a cobardia, e os momentos que deixamos passar.

Mudança(s)

Olhou para o local que tinha sido a sua casa nos últimos 15 anos.
Ali tinha passado toda a sua vida. Crescera, chorara, rira. Conhecia cada canto.
Olhando para a casa vazia pensava na distinção muito anglo-saxónica entre house e home.
Mesmo vazia aquela casa era mais do que uma casa.
Em frente a uma das janelas olha a rua em frente. Vê o Sr. Janeiro a passear o cão, o vizinho Frade a limpar compulsivamente o carro, vê a Dª Catarina sentada à janela, tirando mentalmente notas para a conversa com as outras velhotas, no café.
A sua casa, o seu lar não tinha só paredes, começava na rua, 50 metros acima, e terminava lá em baixo, na praceta. Começava no R/c e terminava no 3º andar. O seu lar começava nas caras que tinham um nome, e mesmo naquelas em que o ignorava.
O seu lar começava na vizinha que lhe abria a caixa do correio, com a chave dela (!), "Hoje tens uma carta!". Continuava na bola que era chutada pelo puto de cima, no som da aranha, a percorrer a casa, da irmã mais nova dele. Continuava nos amigos que lhe tocavam à porta para irem juntos no autocarro para a escola. O seu lar terminava ali.
A sua casa seria outra agora, noutro local, com novas caras, novos limites, novas manias. Demoraria tempo até ser novamente um lar.
Mesmo com os mesmos móveis.

Wednesday, October 29, 2008

Repete-se ad nauseam.
Os alunos bocejam, evitam fechar os olhos. Evitam, em vão. Alguns chegam mesmo a adormecer.
Acordam com o som do corpo do docente a cair, fulminado por um avc.
Muitos não conseguem evitar um sorriso suspirante.
Há três dias que tem dificuldades em adormecer.
A Euribor a subir, juntamente com a barriga da esposa, o trabalho de cresce na mesa de trabalho e na caixa de correio electrónico, o curso de especialização que o obrigaram a tirar.
Há três dias que tem dificuldades em adormecer.
Ele que não ressona, atordoou a turma com um ressonar pesado e descansado.
O professor, boquiaberto, acordou-o violentamente.
Há três dias que tem dificuldades em adormecer. Hoje não será diferente.
Chegou morto ao hospital.
O carro capotara, as pernas esmagadas, o corpo lacerado e partido.
Tentou despedir-se da esposa. Pairou até à sua rua, encontrou-a na cama com o vizinho do lado.
Ficou lívido!

A Mão


A caneta escorrega entre os dedos. Tenta mexer a mão, com sucesso. Agarra novamente a caneta.
Esta escorrega-lhe novamente entre os dedos.
A dormência desaparece rapidamente.
Encontra-se entre o temor e a curiosidade.
Agarra a garrafa de água com a mão. A dormência não volta. Com a esquerda desatarracha a tampa e bebe um trago.
Olha para a mão, belisca-a e sente o ardor.
Olha para a caneta e agarra-a com a mão esquerda. Faz uns rabiscos. Nada acontece.
Agarra novamente a caneta com a mão direita. "Automaticamente" a mão adormece.
Olha para a caneta, atira-a para o caixote do lixo. Senta-se ao computador e escreve o texto pretendido.
Hesito. A ponta da caneta vai sujando o papel, sem que uma letra ou palavra se distinga.
Tento que seja a caneta a escolher o caminho, que seja ela a pensar.
No entanto, os pontos, rabiscos e traços não ganham personalidade linguística.
Começo a passear mentalmente pelo alfabeto. Com que palavra começarei o texto?
E começarei com um verbo, um artigo ou um adjectivo?
Para quê perder tempo com o tamanho do texto se ainda não lhe descobri o tema? Ou que tipo de texto será?
Deixo a caneta a olhar para o papel, de cima para baixo.

Tuesday, July 01, 2008

Chaos AD

Às vezes penso no que poderia ter acontecido se…
Há tantos ses na nossa vida, pelo menos na minha.

Encontrei uma caixa com cartas do início dos anos 90.
Na altura não havia e-mail, e a carta era sinal de que havia alguém do outro lado, alguém que víamos de tempos a tempos.
Sem carro, sem telemóvel, sem mail, alguém que morasse em Loures ficava demasiado longe. Sinal dos tempos, hoje fica a pouco menos de uma hora de distância . As cartas faziam a vez dos blogs. Falavam do dia-a-dia. Matavam saudades e, consoante a pessoa, mantinham a ilusão de algo mais viva.
Fui lendo cartas, relembrando caras e acontecimentos. Rindo e quase chorando. Há tanta coisa de que nos esquecemos, ler aquelas folhas, ainda não amareladas, renovou algumas células que me ajudaram a lembrar acontecimentos esquecidos.
Parei numa, olhando para o envelope.
Uma das primeira paixonetas. Até que reconheci que, para ser seu amigo, tinha de esquecer os olhares apaixonados, o estar ao lado como uma lapa. Fomos bons amigos durante algum tempo, até ela partir, de novo, com os pais.
Aquela carta foi a última.
Houve duas coisas que me fizeram parar no tempo. A pergunta dela: Ainda gosta da Luísa?
Não, ainda não. Não, nunca gostei. Mas as conversas contigo sobre a Luísa equivaliam a conversas sobre nós, que nunca existiram, que nunca o foram.
Ainda gosta da Luísa? Não, ainda não. Talvez tenha pensado na tua pergunta com mais tempo, quando recebi a carta. Talvez tenha sido essa a razão por nunca te ter respondido. Talvez tenha gostado de outra, e talvez tenhas gostado de outro. Terá sido por isso que as cartas pararam? Deste e desse lado do oceano?
Fiquei ali, entre o que podia ter sido e o que foi, entre a nostalgia de uma paixoneta de 5 tostões, quando vi a última frase. Sepultura 4ever.
O que eu ri. Tu que nem gostavas de música pesada, eu sim!
Tu que acarinhavas os Sepultura como todos os outros artistas do teu país. Tu que sabias que eu gostava deles. Sepultura 4ever.
Fiquei a pensar se estas duas frases, a pergunta e o statement, teriam algo mais a dizer do que aquilo que realmente diziam? Mensagens subliminares, segundas intenções? Nunca fui bom a ler nas entrelinhas, às vezes nem no texto chapado! Terias tu segundas intenções? Talvez não…Claro que não. Não, estando agora no Brasil.

Fiquei nostálgico. Ser português é ser nostálgico.
Nessa semana li muito. Saí algumas vezes à noite.
E no sábado, mais um encontro com o passado…

Estava sentado num café. A ler o jornal. Uma voz, desconhecida, soou acima de mim: Paulo?
Levantei os olhos e vi aqueles olhos pretos, aquele sorriso que me fez sonhar tantas vezes.
Verónica! Aqui e agora. Quase dez anos depois.
Estás bom, como vais, o que tens feito, há quanto tempo, ainda o outro dia pensei em ti – aquelas trivialidades que fundamentam uma conversa periclitante.
Retirei o saco com o Chaos AD, e ela sentou-se.
Continuava a rir, muito como sempre.
Lembro-me dela, linda como agora. Ainda que o cabelo preto pudesse ter alguma coisa a ver com isso. Tenho uma tara por cabelos pretos. Como aqueles homens que dizem que as mulheres italianas são sempre bonitas, mesmo quando feias, têm um je ne sais quoi. Assim sou eu com cabelos pretos. Mais do que olhar para a face, para o corpo, é o cabelo que me inebria, que me cativa.
E ali estava ele à minha frente, o cabelo preto de Verónica.
Brinco, claro. Ou quase que brinco. Ela que era tão diferente de mim. Que não lia nada, que só gostava de comédias românticas, para as quais nunca tive paciência. Ela que não percebia piadas indirectas, inteligentes. Ela que era tão burra como as loiras, mas upgraded, com cabelo preto.
Alguém que nunca beijei, alguém que me roubava o pensamento. Via-a por breves momentos, numa festa de um amigo, em casa de alguém e passava semanas a tentar esquecê-la. Mas depois via-a novamente. E continuava a empurrar a pedra até ao alto da montanha. Ela que gostava de estar na minha companhia, gosto que eu retribuía. Ela que povoava os meus sonhos, de dia e de noite.
A quem nunca tive coragem de dizer Amo-te, ou gosto de ti.
E eu que pensava que ela sabia. Quiçá que tivesse o mesmo problema que eu. Que não percebesse indirectas, segundas intenções, que na realidade nunca o foram, sempre primeiras intenções, travadas pela distância e pela timidez. Travadas pelo desconhecimento dos seus sentimentos. E a pedra quase no alto.
Ela, a quem uma vez dei a mão. Num táxi. E a mão dela, frouxa por momentos, e escorregadia pelo resto da viagem. Ela que não me olhou mais nos olhos nessa noite. Ela, saberia mais tarde, que namorava já. E a pedra no sopé da montanha. De uma vez por todas. A quem nunca mais empurraria.
Ela ali, à minha frente. Sorrindo. Uma nova pedra?
E eu a pensar que já estou velho para isto, não para falar com ela, ou vê-la, mas para relembrar o que nunca foi, aquele passado lá longe, quando andava a pé, sem telemóvel, sem pc em casa, com cartas a chegar de dois em dois meses.
Ela, ali. Que se lixe a pedra. E a montanha, já agora.
Ainda gostas dela?
Sepultura 4ever.
Chaos...

Tuesday, May 13, 2008

Viu-a de soslaio. Esperou que se virasse. Era baixinha, teria cerca de 60 anos (o que nunca é fácil de avaliar), uma mala com rodas e o cabelo cinzento (que raio de cliché, pensou). Escolheu a faca de caça, bradiu-a no ar uma ou duas vezes.
Avançou impetuosamente e acertou-lhe no braço. Viu sangue, pouco ainda, a jorrar. Sem dar oportunidade a que a velha se virasse, espetou a faca nas costas. Uma, duas, três vezes.
Virou-a, tapou-lhe a boca com a mão e espetou, novamente, a faca, desta vez no estômago.
Feliz com a forma como o tinha feito, bem melhor do que da última vez, olhou para o canto superior do ecrã, 50000 de pontos.
Jooooão, anda comer - ouviu a mãe chamar.
E lá foi ele, esganado de fome, com a vista um pouco cansada, resultado das 4 horas de jogo, naquela manhã.
Deu um beijo à mãe que ainda não vira, e sentou-se à mesa. Olhou para o bife mal passado. Para a faca de serrilha.
Depois para a mãe. E sorriu.