Friday, May 08, 2009

Olha para o copo, para o whisky dentro deste. Dá mais uma golada.
Sempre se considerou um homem com humor, sempre gostou de rir, e tem pena que já não haja boas anedotas.
Há um mês contaram-lhe uma sobre o Primeiro-Ministro. Achou piada, não tanto pelo sentido de humor, mas...pela crítica, por...sabe lá, uma anedota é também um curto tratado sociológico.
Poucos dias depois, contou-a a dois colegas durante um coffee-break.
Enche o copo mais uma vez.
Um dos colegas chibou-se, o circo começou e o pão foi oferecido pelas televisões, rádios e jornais.
O telemóvel não mais parou, uma semana depois disseram-lhe que estava demitido.
Bebe mais um gole...
"Porra! E o pior é que contei mal a anedota..."

Jogos de Palavras

O circo passava por imensas dificuldades financeiras.
Desesperado, decidiu clonar um clown.

Hábitos Linguísticos e a teimosia de cada um

Passou por um antigo cliente, ele sorrindo-lhe disse-lhe:-Ora, viva.
Sendo do contra, morreu.
Chove lá fora e dentro de mim. Cliché, claro, mas não menos verdade.
Não morreu ninguém. Simplesmente, acordei cinzento - mais um cliché!
Como explicar que um sentimento nos possa transformar o ser, mesmo que por breves momentos? Sejam eles minutos, horas, ou dias? Que a brevidade depende sempre do contexto. Não costumo ser assim...
Estou num daqueles momentos em que tudo me sai mal, da boca, do corpo, as palavras saem afiadas, os jeitos tornam-se mais ameaçadores do que esperado, o olhar é menos simpático.
Acordar depois de uma noite bem dormida, ser incapaz de sorrir, olhar-me no espelho e sentir pena, algum tipo de asco e estranheza perante a pessoa que sou reflectida ali. Por alguma razão olhamos para fora de nós. Penso que poucos ficam felizes com o que vêem aos espelhos, eu sei que não sou um desses. Olhar é ver o que está perto de mim, longe também. É esquecer-me um dia inteiro do que sou, de como pareço. É esquecer-me da minha aparência, é ausentar-me de mim. E depois, passo por um espelho, por vezes um vidro, e tenho um vislumbre de quem eu sou, da matéria de que sou feito.Quem és tu? Perdão, quem sou eu?
Vestir-me na estranheza de me cobrir, reinventar a idumentária, demasiado cinzenta, pouco negra. Vestindo um corpo que não bate com a alma, sendo alguém fisicamente diferente da pessoa dentro desse mesmo corpo.
Chove lá fora...
O meu estado de espírito não depende do tempo, já passei por isto em dias solarengos, quentes mesmo. Por isso, sei que andarei todo o dia a pingar, a chover este estado de espírito e é isso que mais me intranquiliza.
Espero que o sol apareça.
Entrou no alfarrabista num misto de alegria e alergia. Adora livros, velhos ou novos, ´tijolos` ou ´calços` de mesas, romances ou livros mais específicos.
Olhou à sua volta. Por onde começar? Espirrou uma primeira vez, ao pegar numa edição do início do século do seu romance português favorito - Os Maias.
Demorou imenso tempo na primeira estante. O dono, ali não havia empregados, pergunta-lhe se o pode ajudar, se procura algo específico.
"Nem sim, nem não." - responde. "Quero um livro, não sei qual. Acho que é ele que me vai escolher."
O alfarrabista sorri, está habituado a excêntricos, lunáticos, estudiosos, professores universitários, a leitores, a profissionais da escrita e aos amantes do livro.
Percebendo que cada um é como é, e que a relação com os livros é pessoal, sui generis, como uma relação entre marido e mulher, deixa-o só, após mais um espirro.
O homem vai vendo os títulos, as lombadas, os autores. Demora tempo com alguns livros, pesando-os, pensando no título, procurando entre as páginas algo que o prenda.
De repente, pega num volume amarelado pelo tempo. Espirra uma e duas vezes. O título fascina-o, não conseguindo perceber qual será o assunto. "Míriades ausentes". Desfolheia o livro. Fascinado com a tipologia do mesmo, sente que foi escolhido. Imagens, gravuras, poemas, crónicas, contos, tudo cabe dentro daquelas páginas.
Pergunta ao alfarrabista, que já o observava há algum tempo, o preço. Este sorri-lhe, diz que é uma oferta. O homem tenta perceber a razão.
O alfarrabista sorri-lhe, diz-lhe que fica para outra ocasião. "Leia-o primeiro, se quiser falar depois disso, venha até cá. De qualquer modo, acho que o livro o escolheu, realmente."
Ainda mais curioso, agradece ao velho dono, e avança a passos largos para casa.
A música entra-lhe no espírito. A letra, o compasso, a alegria.Tudo o contagia. Bate as palmas, olhando para a estrada.O carro derrapa um pouco, a alegria torna-se em susto, as mãos não conseguem suster o volante.Estampa-se contra uma parede. Ileso.
Ileso? O ego, não.
Dizem que os olhos são a janela da alma.
Não sei se serão, provavelmente por descuido e impossibilidade de analisar as almas.
Mas há olhos que nos prendem. Pela forma como enquadram um rosto, pela tristeza ou felicidade que deles emana, pela timidez ou coragem, porque sem olhos seríamos bem menos expressivos.
E lembro-me dela, a entrar na sala, num passo tímido, com os olhos em baixo.
Dela à procura de uma cara conhecida, em vão.
E enquanto ela percorria a sala, os meus olhos tentavam percorrer os seus, ciente de que não me via.
Via o nariz pequeno, bem desenhado, o cabelo castanho, pelo ombro, o vestido justo ao corpo, mas não demasiado justo, e a timidez, que de tão grande a vestia segunda vez.
Ela olhou-me, nos olhos, um segundo, menos que isso. Sentou-se numa das cadeiras, e ali ficou.
Numa folha de papel somos que quisermos, como quisermos. Num conto somos valentes e corajosos. Na vida real, na vida real temos medo do outro.
Fiquei mais algum tempo ali. Olhando para ela, de costas para mim. Imaginando aquilo que poderia ver, se quisesse. Os olhos dela.
Saí, e voltei a casa.
Num conto podemos inventar futuros, realidades, possibilidades. Na vida real amaldiçoamos a cobardia, e os momentos que deixamos passar.

Mudança(s)

Olhou para o local que tinha sido a sua casa nos últimos 15 anos.
Ali tinha passado toda a sua vida. Crescera, chorara, rira. Conhecia cada canto.
Olhando para a casa vazia pensava na distinção muito anglo-saxónica entre house e home.
Mesmo vazia aquela casa era mais do que uma casa.
Em frente a uma das janelas olha a rua em frente. Vê o Sr. Janeiro a passear o cão, o vizinho Frade a limpar compulsivamente o carro, vê a Dª Catarina sentada à janela, tirando mentalmente notas para a conversa com as outras velhotas, no café.
A sua casa, o seu lar não tinha só paredes, começava na rua, 50 metros acima, e terminava lá em baixo, na praceta. Começava no R/c e terminava no 3º andar. O seu lar começava nas caras que tinham um nome, e mesmo naquelas em que o ignorava.
O seu lar começava na vizinha que lhe abria a caixa do correio, com a chave dela (!), "Hoje tens uma carta!". Continuava na bola que era chutada pelo puto de cima, no som da aranha, a percorrer a casa, da irmã mais nova dele. Continuava nos amigos que lhe tocavam à porta para irem juntos no autocarro para a escola. O seu lar terminava ali.
A sua casa seria outra agora, noutro local, com novas caras, novos limites, novas manias. Demoraria tempo até ser novamente um lar.
Mesmo com os mesmos móveis.

Wednesday, October 29, 2008

Repete-se ad nauseam.
Os alunos bocejam, evitam fechar os olhos. Evitam, em vão. Alguns chegam mesmo a adormecer.
Acordam com o som do corpo do docente a cair, fulminado por um avc.
Muitos não conseguem evitar um sorriso suspirante.
Há três dias que tem dificuldades em adormecer.
A Euribor a subir, juntamente com a barriga da esposa, o trabalho de cresce na mesa de trabalho e na caixa de correio electrónico, o curso de especialização que o obrigaram a tirar.
Há três dias que tem dificuldades em adormecer.
Ele que não ressona, atordoou a turma com um ressonar pesado e descansado.
O professor, boquiaberto, acordou-o violentamente.
Há três dias que tem dificuldades em adormecer. Hoje não será diferente.
Chegou morto ao hospital.
O carro capotara, as pernas esmagadas, o corpo lacerado e partido.
Tentou despedir-se da esposa. Pairou até à sua rua, encontrou-a na cama com o vizinho do lado.
Ficou lívido!

A Mão


A caneta escorrega entre os dedos. Tenta mexer a mão, com sucesso. Agarra novamente a caneta.
Esta escorrega-lhe novamente entre os dedos.
A dormência desaparece rapidamente.
Encontra-se entre o temor e a curiosidade.
Agarra a garrafa de água com a mão. A dormência não volta. Com a esquerda desatarracha a tampa e bebe um trago.
Olha para a mão, belisca-a e sente o ardor.
Olha para a caneta e agarra-a com a mão esquerda. Faz uns rabiscos. Nada acontece.
Agarra novamente a caneta com a mão direita. "Automaticamente" a mão adormece.
Olha para a caneta, atira-a para o caixote do lixo. Senta-se ao computador e escreve o texto pretendido.
Hesito. A ponta da caneta vai sujando o papel, sem que uma letra ou palavra se distinga.
Tento que seja a caneta a escolher o caminho, que seja ela a pensar.
No entanto, os pontos, rabiscos e traços não ganham personalidade linguística.
Começo a passear mentalmente pelo alfabeto. Com que palavra começarei o texto?
E começarei com um verbo, um artigo ou um adjectivo?
Para quê perder tempo com o tamanho do texto se ainda não lhe descobri o tema? Ou que tipo de texto será?
Deixo a caneta a olhar para o papel, de cima para baixo.

Tuesday, July 01, 2008

Chaos AD

Às vezes penso no que poderia ter acontecido se…
Há tantos ses na nossa vida, pelo menos na minha.

Encontrei uma caixa com cartas do início dos anos 90.
Na altura não havia e-mail, e a carta era sinal de que havia alguém do outro lado, alguém que víamos de tempos a tempos.
Sem carro, sem telemóvel, sem mail, alguém que morasse em Loures ficava demasiado longe. Sinal dos tempos, hoje fica a pouco menos de uma hora de distância . As cartas faziam a vez dos blogs. Falavam do dia-a-dia. Matavam saudades e, consoante a pessoa, mantinham a ilusão de algo mais viva.
Fui lendo cartas, relembrando caras e acontecimentos. Rindo e quase chorando. Há tanta coisa de que nos esquecemos, ler aquelas folhas, ainda não amareladas, renovou algumas células que me ajudaram a lembrar acontecimentos esquecidos.
Parei numa, olhando para o envelope.
Uma das primeira paixonetas. Até que reconheci que, para ser seu amigo, tinha de esquecer os olhares apaixonados, o estar ao lado como uma lapa. Fomos bons amigos durante algum tempo, até ela partir, de novo, com os pais.
Aquela carta foi a última.
Houve duas coisas que me fizeram parar no tempo. A pergunta dela: Ainda gosta da Luísa?
Não, ainda não. Não, nunca gostei. Mas as conversas contigo sobre a Luísa equivaliam a conversas sobre nós, que nunca existiram, que nunca o foram.
Ainda gosta da Luísa? Não, ainda não. Talvez tenha pensado na tua pergunta com mais tempo, quando recebi a carta. Talvez tenha sido essa a razão por nunca te ter respondido. Talvez tenha gostado de outra, e talvez tenhas gostado de outro. Terá sido por isso que as cartas pararam? Deste e desse lado do oceano?
Fiquei ali, entre o que podia ter sido e o que foi, entre a nostalgia de uma paixoneta de 5 tostões, quando vi a última frase. Sepultura 4ever.
O que eu ri. Tu que nem gostavas de música pesada, eu sim!
Tu que acarinhavas os Sepultura como todos os outros artistas do teu país. Tu que sabias que eu gostava deles. Sepultura 4ever.
Fiquei a pensar se estas duas frases, a pergunta e o statement, teriam algo mais a dizer do que aquilo que realmente diziam? Mensagens subliminares, segundas intenções? Nunca fui bom a ler nas entrelinhas, às vezes nem no texto chapado! Terias tu segundas intenções? Talvez não…Claro que não. Não, estando agora no Brasil.

Fiquei nostálgico. Ser português é ser nostálgico.
Nessa semana li muito. Saí algumas vezes à noite.
E no sábado, mais um encontro com o passado…

Estava sentado num café. A ler o jornal. Uma voz, desconhecida, soou acima de mim: Paulo?
Levantei os olhos e vi aqueles olhos pretos, aquele sorriso que me fez sonhar tantas vezes.
Verónica! Aqui e agora. Quase dez anos depois.
Estás bom, como vais, o que tens feito, há quanto tempo, ainda o outro dia pensei em ti – aquelas trivialidades que fundamentam uma conversa periclitante.
Retirei o saco com o Chaos AD, e ela sentou-se.
Continuava a rir, muito como sempre.
Lembro-me dela, linda como agora. Ainda que o cabelo preto pudesse ter alguma coisa a ver com isso. Tenho uma tara por cabelos pretos. Como aqueles homens que dizem que as mulheres italianas são sempre bonitas, mesmo quando feias, têm um je ne sais quoi. Assim sou eu com cabelos pretos. Mais do que olhar para a face, para o corpo, é o cabelo que me inebria, que me cativa.
E ali estava ele à minha frente, o cabelo preto de Verónica.
Brinco, claro. Ou quase que brinco. Ela que era tão diferente de mim. Que não lia nada, que só gostava de comédias românticas, para as quais nunca tive paciência. Ela que não percebia piadas indirectas, inteligentes. Ela que era tão burra como as loiras, mas upgraded, com cabelo preto.
Alguém que nunca beijei, alguém que me roubava o pensamento. Via-a por breves momentos, numa festa de um amigo, em casa de alguém e passava semanas a tentar esquecê-la. Mas depois via-a novamente. E continuava a empurrar a pedra até ao alto da montanha. Ela que gostava de estar na minha companhia, gosto que eu retribuía. Ela que povoava os meus sonhos, de dia e de noite.
A quem nunca tive coragem de dizer Amo-te, ou gosto de ti.
E eu que pensava que ela sabia. Quiçá que tivesse o mesmo problema que eu. Que não percebesse indirectas, segundas intenções, que na realidade nunca o foram, sempre primeiras intenções, travadas pela distância e pela timidez. Travadas pelo desconhecimento dos seus sentimentos. E a pedra quase no alto.
Ela, a quem uma vez dei a mão. Num táxi. E a mão dela, frouxa por momentos, e escorregadia pelo resto da viagem. Ela que não me olhou mais nos olhos nessa noite. Ela, saberia mais tarde, que namorava já. E a pedra no sopé da montanha. De uma vez por todas. A quem nunca mais empurraria.
Ela ali, à minha frente. Sorrindo. Uma nova pedra?
E eu a pensar que já estou velho para isto, não para falar com ela, ou vê-la, mas para relembrar o que nunca foi, aquele passado lá longe, quando andava a pé, sem telemóvel, sem pc em casa, com cartas a chegar de dois em dois meses.
Ela, ali. Que se lixe a pedra. E a montanha, já agora.
Ainda gostas dela?
Sepultura 4ever.
Chaos...

Tuesday, May 13, 2008

Viu-a de soslaio. Esperou que se virasse. Era baixinha, teria cerca de 60 anos (o que nunca é fácil de avaliar), uma mala com rodas e o cabelo cinzento (que raio de cliché, pensou). Escolheu a faca de caça, bradiu-a no ar uma ou duas vezes.
Avançou impetuosamente e acertou-lhe no braço. Viu sangue, pouco ainda, a jorrar. Sem dar oportunidade a que a velha se virasse, espetou a faca nas costas. Uma, duas, três vezes.
Virou-a, tapou-lhe a boca com a mão e espetou, novamente, a faca, desta vez no estômago.
Feliz com a forma como o tinha feito, bem melhor do que da última vez, olhou para o canto superior do ecrã, 50000 de pontos.
Jooooão, anda comer - ouviu a mãe chamar.
E lá foi ele, esganado de fome, com a vista um pouco cansada, resultado das 4 horas de jogo, naquela manhã.
Deu um beijo à mãe que ainda não vira, e sentou-se à mesa. Olhou para o bife mal passado. Para a faca de serrilha.
Depois para a mãe. E sorriu.

Thursday, April 17, 2008

Breve Narrativa

Está guardado. Do vento e da chuva. Sentado na cadeira de rodas, lembra-se de sentir a chuva enquanto ia para a escola. Com saudade, relembra aquela gota, sempre incómoda, que lhe acertava no pescoço, que descia gelidamente, fintando a roupa. Lembra-se da mãe, zangando-se, primeiramente, resignada, depois, pedindo-lhe que levasse o chapéu de chuva. E ele, perguntando qual chapéu de chuva, saía, sorrindo.
Cansou-se de levar chapéu para a escola e de chegar a casa molhado, esquecido o chapéu numa sala de aula ou no autocarro.
Sente saudades de andar, de correr. Mas é de sentir a chuva no corpo que mais sente falta.
Está preso. Do vento e da chuva. Sentado na cadeira de rodas, chora...

Wednesday, October 03, 2007

Espero o café enquanto escrevo num caderno preto.
Tento imaginar tramas e personagens.
O café chega ao mesmo tempo que uma rapariga de cabelos pretos entra. Com uns olhos tristes, vem apropriadamente de preto. Encarna a beleza triste.
Senta-se numa mesa, pede um café e acende um cigarro. O café esfria à medida que o cigarro é compulsivamente fumado. Ela olha pela janela. Para lado nenhum, talvez para dentro de si. E os olhos tristes, negros, teimando em olhar o vazio.
Decido escrever algo aproveitando a triste musa. Enquanto escrevo, e indeciso quanto a um dos atributos, levanto a cabeça para olhar para ela, desvaneceu-se, saiu.
Apropriado...
Acorda.
São seis da manhã, ainda falta meia hora para o despertador tocar, a bexiga antecipou o acordar.
Levanta-se e vai até à casa de banho ainda com algumas sensações e imagens do sonho que foi interrompido. Faz um esforço para tentar montar o puzzle onírico.
Ele e a namorada. Visitam alguém, mas depois a namorada desaparece de cena.
Há uma rapariga familiar, lembra-se de um desejo de a rever e falar com ela. Fez-lhe um convite para beber um café, convite que ela aceitou.
Encontram-se numa rua apinhada de cafés, por alguma razão, invisível, não conseguem entrar em nenhum. Chove, e os cafés encontravam-se abertos, todos eles. Correm para o carro (de quem é o carro?). Entram, mas ela vai para a parte de trás, entram três gigantes abrutalhados e preenchem os lugares que faltam.
Sorriem, falam, dão-lhe pequenos estalos, sente-se avisado, mas não sabe de que é que o estão a avisar.
Ela, lá atrás, ri, não é um sorriso, é uma risada.
E foi quando acordou. Gosta de tentar relembrar-se dos sonhos, sabendo que adormecido os sonhos fazem mais sentido do que quando está acordado. Há um universo de leis que são obedecidas quando se está dormindo. Quando se acorda nem tudo faz sentido, ou quase nada.
Sabe que à noite a maior parte destes pormenores ter-se-ão perdido no seu inconsciente.
Deita-se novamente, afinal ainda falta meia hora até ao despertador tocar. Sabe que dificilmente adormecerá. Tem o vago desejo de reecontrar os caminhos do sonho, espera uma sequela ou repetição do mesmo.
Lembra-se de em criança ter um sonho recursivo e repetido. O sonho, de que não se lembra claramente, era uma repetição de algo anormal, e que ao mesmo tempo, e se calhar por isso mesmo, lhe metia medo. Lembra-se de com seis ou sete anos acordar lavado em suor, e com medo de voltar a fechar os olhos.
Agora que pensa nisso lembra-se de sonhos em que queria correr e não conseguia. Por mais que tentasse o corpo só obedecia em câmara lenta. Ninguém corria atrás dele, ele não fugia de nada ou ninguém, mas a angústia de não andar normalmente, a angústia de esforçar todo o corpo e os músculos para dar um passo normalmente. Lembra-se de acordar extenuado e dorido.
Levanta-se com o toque do despertador, não adormeceu sequer.
Sente-se nostálgico, e atribui a culpa ao sonho. Como é possível sentir-se nostálgico por alguém que não reconheceu? Por alguém sonhado? Estará o seu subconsciente a transmitir-lhe alguma mensagem?
Durante todo o dia sente-se incompleto. Se há coisa que o aborrece é não saber dar nome a alguém, ou situar alguém, passa largos minutos a tentar descobrir de que filme conhece aquele actor, de onde conhece aquela pessoa que lhe sorriu e perguntou como ia. Hoje é o sonho que o inquieta.
Tenta fazer um inventário de namoradas, paixões e platonices parecidas.
Vai de autocarro a pensar nelas. Janta com a namorada e dá-lhe menos atenção que habitualmente. Ela pergunta-lhe o que se passa. Responde que nada e permanece ali, entre a realidade e o onírico, tentando fazer uma relação que o satisfaça.
Chega a casa e deita-se, esperando que a cama o ajude a relembrar-se de alguma coisa. Tenta fazer o exercício contrário, em vez de se lembrar das namoradas tenta relembrar-se da rapariga do sonho. Nada. Lembra-se que os olhos o marcaram, mas acha que era mais porque lhe abriam alguma porta para a memória. Volta à lista mental, nenhuma delas tem olhos que o tenham marcado especialmente.
Olhos….olhos…olh…
Adormece.
Acorda sem se lembrar de alguma experiência no império de Morfeu.
Age segundo o seu ritual. Lava-se, veste-se e mete-se no carro até ao comboio. Leva um livro que não consegue ler, a rapariga sem rosto assalta-lhe constantemente a memória.
O trabalho, naquele dia, não rende. Os colegas acham-no mais distante, menos brincalhão e concentrado do que habitualmente.
A namorada telefona-lhe à hora de almoço a perguntar como está, que não lhe telefonou de manhã. Sente preocupação na sua voz. Diz que está cheio de trabalho, desculpa-se com isso para a despachar e dizer-lhe que só a verá no dia seguinte.
Esqueceu-se da namorada nestes últimos dois dias, se não tivesse jantado com ela nenhum pensamento teria tido em que ela aparecesse.
Anda obcecado com a rapariga irreal. Como é que um sonho pode alterar a vida exterior e interior de alguém?
Passou-se uma semana.
Nesta semana comeu pouco, quase nada; discutiu fortemente com a namorada a meio da semana. Às 22h ela telefonou-lhe para saber como estava, já tinha adormecido e começara a sonhar.
Acha que estava a sonhar com a rapariga do sonho quando o toque polifónico com a música I Want you to Want me o acordou, gritou com a namorada, não lhe deu possibilidade sequer de se desculpar, ainda que não existisse razão para isso. Não voltou a sonhar, nem a falar com ela. Cada vez que o telemóvel toca ele desliga-o.
O telefone, em casa, está desligado da ficha, e o telemóvel já quase que não é ligado.
Ontem, alguns amigos estavam à porta de casa com a namorada, mal-humorado espantou-os com fel. Contou algumas verdades desconhecidas de alguns, não se importa que tenha aberto brechas no grupo, espantou-os com a sua (até aí desconhecida) hostilidade.
Vive para alguém que não conhece, que não tem existência. Não pensa na estranheza disto tudo.
Adormece e encontra o objecto da sua obsessão num sonho. Finalmente, ela sorri-lhe e rapidamente o sorriso torna-se num esgar de maldade. O corpo treme-lhe, qual corpo?
Tenta fugir, mas não consegue. Ela aproxima-se dele, que tenta fugir, mas o mais que pode é fazê-lo em câmara lenta.
Encontram-no dois dias depois, deitado, de barriga para baixo, num coma profundo, com um ar de tristeza absoluto. Não reage a nada. De vez em quando grita, por breves segundos, mas um grito que assusta quem o ouve, um grito que relembrarão toda a vida, curta ou longa que seja.
Mais valia estar morto, mas não está, está adormecido, na presença da sua obsessão por uma breve eternidade.
Pós-Título: Os Três Gigantes
Publicado no nº2 da Callema

Friday, May 18, 2007

Mais uma Breve Narrativa

Dez da noite, e faz ainda um calor sufocante. O chão transpira o calor retido durante o dia.
Tenta seguir a custo. As ruas estão prenhas de gente. Comemora-se a festa anual do Santo da cidade. Haverá um número ínfimo de fiéis assíduos no salão frio da igreja.
Mas, pelo menos uma vez por ano, o Santo é pretexto para comes e bebes, concertos, venda de artesanato e algum desvario sexual.
Coloca-se na fila das farturas.
Enquanto espera, lembra-se dos fins de semana da infância, no Alentejo fronteiriço na aldeia onde nasceram os avós. Uma aldeia pequena, com pouco mais de mil habitantes e que tem a proeza de no largo ter dez tabernas, só no largo, outras há espalhadas e todas conseguem dar o pão nosso de cada dia aos seus proprietários!
Lembra-se de uma manhã chuvosa e fria. Levantara-se por volta das nove horas e a avó dera-lhe quinhentos escudos para comprar farturas. Trouxe um saco cheio, hoje a unidade custa um euro!
Nunca as farturas lhe souberam tão bem, juntamente com uma caneca de café. Naquela aldeia, perdida entre Espanha e o Guadiana e o resto de Portugal.
Na altura o Alentejo era uma maçada. Demasiado frio no Inverno, angustiantemente quente no verão, e com o Pai, de verão e inverno, a lançar a âncora naquela aldeia.
Hoje é da cidade que está farto, farto dos carros na estrada e em cima dos passeios, fartos das pessoas que não sabem sorrir e que só querem saber da vida dos outros para a quadrilhice, da ausência de espaços verdes e da incoerência humana que nos tempos de lazer preenche os centros comerciais. Quer faça frio, quer faça calor.
Aos cinquenta e cinco anos apetece-lhe fugir para o Alentejo. A pré-reforma, ainda que curta, dar-lhe.á o suficiente para ele, e um quintal e uma pequena horta dar-lhe-ão mais alguma folga à carteira.
Um ano depois, numa noite mais quente que esta, numa festa associada a outro Santo, pensará na vida que levava na cidade, ao comprar uma fartura, numa aldeia alentejana.
"Uma fartura e meia dúzia de churros, se fizer favor."

Tuesday, April 24, 2007

O tempo dispersa-nos. A frase, não passa disso mesmo, é uma observação, mas não uma regra.
Vinte anos passados vejo como o tempo se uniu para nos juntar. Fez-nos bons amigos, rimos e chorámos, apoiámo-nos e fomos o ombro do outro. Andámos na mesma estrada, mas ao contrário de outros optámos por fazê-lo juntos.
Até que hoje o tempo começou a dispersar-nos.
Definitivamente. E a contra gosto!
Olhando para trás é difícil ver as coisas correctamente. A perspectiva não é a melhor, hoje pelo menos. Os acontecimentos flúem até mim sem qualquer ordem, não é um flashback ordenado, assim de repente nem sei ordenar tudo o que aconteceu.
Talvez por isso prefiro começar pelo fim ou pelo seu começo. Reunimo-nos todos em minha casa, esta era a minha vez. Foram aparecendo consentaneamente com a hora do fim do expediente. Primeiro a Leonor, depois o Carlos e a Vanda, aparecendo no fim e num acordo surdo o Rui e Mónica.
Pelo menos duas vezes por mês juntamo-nos a uma Sexta-Feira em casa de alguém, para falarmos, comermos, discutirmos, para nos vermos simplesmente! Para vermos um filme ou discutirmos a politiquice nacional!
Não consigo pensar no tema de conversa, estou demasiado cansado. Mas foi a última vez que estivemos todos juntos. Hoje pela manhã descobri que a Mónica tinha morrido, num acidente de carro. Não fez uma curva e caiu duma altura significativa, tendo perdido instantaneamente a vida ou pelo menos é o que dizem. Passámos o dia atarantados, não sabendo como agir ou mesmo reagir. Fomos todos apanhados de surpresa, ainda ontem estava connosco, a rir, a falar, conversar. Ao menos estivemos com ela, o Alberto, o marido estava em trabalho numa Feira de Editores Internacional. Falei com ele durante a tarde, vinha a caminho, estava à espera do avião e estava demasiado abatido para dizer muita coisa com nexo. Falarei com ele amanhã. Também eu estou cansado, vou dormir e pegar neste proto-diário de manhã.
Afinal o sol ainda não nasceu. Eu sem sono, perdi uma das minhas melhores amigas, tragicamente. Comecei este diário como uma forma de encadear ideias e de manter alguma calma, quando escrevo o nervosismo desaparece um pouco, escrever nas teclas, pensar e encadear uma linha de raciocínio acalma-me, alivia-me.
Conhecemo-nos na Faculdade. Não foi amor à primeira vista, fomo-nos conhecendo e criando os laços que ainda hoje nos prendem. Estamos unidos pelo tempo, pela amizade, pela cumplicidade, pela preocupação, pela experiência. Já passamos por tanta coisa juntos, que…
Somos uma família, penso que é isso que somos. Vivemos as nossas vidas, temos os nossos problemas, discutimos mas a amizade mantém-se.
Todos entrámos para uma Faculdade de Letras, com sonhos e desejos um pouco ainda enevoados. 20 anos depois um de nós trabalha na área, sendo professor. Os outros pairaram por ali durante algum tempo, mas depressa encontraram outros interesses.
A Mónica era designer, amadora mas boa naquilo que fazia. Claro que ter um marido editor sempre ajuda, mas nem era este o caso. Ela fazia a direcção artística de uma editora que não a do marido. Quantas vezes brincámos com ela dizendo que o seu sucesso ainda seria o fim da carreira dele? Sempre na brincadeira porque cada um deles é (era no caso dela, alguma vez me habituarei a falar dela no passado?) bom na sua área de trabalho.Na 6ª feira falava de como poderia ter ido com o marido, mas estava a terminar um trabalho com alguma urgência e de qualquer modo não lhe apetecia ir a “coisas daquelas, ainda por cima eu trabalho para a concorrência”, se ela soubesse! Uma estúpida Feira em troca da sua vida! Que raio de desfaçatez, a do destino!